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terça-feira, 18 de março de 2014

Quem não tem eu lírico usa óculos escuros

                    Todo sofrimento é um parto,  possivelmente lhe dará um filho ou só queira lhe dar a luz, assim como as melhores coisas da vida, as piores também não tem preço, elas parecem estar uma dentro da outra, é um caos organizado, bonito, atraente e bem vestido, é preciso morrer para que nasçam e nascer para que morram, o intervalo entre isso se chama oportunidade, há quem chame de vida, esses são os que não sabem aproveitar oportunidades. 
                       Entrei divagando depressa no consultório do Dr. Luis com intuito de atrasar o diagnóstico:
                       
                      -- Quem não tem eu lírico usa óculos escuros, eu suspeito que por trás de cada Pierre Cardin e Ray Ban se esconde uma fuga a salto fino em cima de um Louboutin, quatro anos na graduação de psicologia, especialização, mestrado, doutorado em filosofia, uma vida tentando entender a vida! Tudo isso para acabar usando um eu lírico em vez de me esconder num modelo aviador tipo Maverick em Top Gun, e veja só? Não tenho um óculos dourado e ofuscante como o seu Dr. Luis. 

                      Ele sorriu quase perdendo a pose enquanto falava meu nome com um  ar de sabedoria que a idade nem lhe permite.

                      -- Ai Fernando. -- Tocou a mesa recompondo a imagem. -- Puro charme Fernando! Puro charme de um velho proctologista que ainda da conta do recado, mas confesso! É péssimo usá-lo no trânsito quando se tem um olho de vidro, enxergar só com um olho  e ver tudo escuro por opção, só pode ser por pura vaidade. 

                       Suspeitei que ele não tivesse entendido nada da minha divagação, que tivesse sorrido por conveniência, afinal só tinha me visto três vezes em sua vida, uma quando o procurei por indicação de um amigo e por já estar acima da idade aconselhável ao exame de próstata, outra por uma crise desajustada de hipocondria, e hoje! Cheio de exames. Eu olhei raso a fim de crucificar minha dúvida e perguntei:

                         -- Conta do recado? 
                         
                         Ele respondeu profundo.
           
                    -- Conta do recado. Eu queria dirigir tão bem quanto faço sexo, mas assim ta bom, transo mais que tenho carros, e as mulheres de hoje custam quase um seminovo, não sei se as mulheres que estão caras ou os carros que andam muito baratos, de fato, o trânsito anda insuportável!
                        
                          Por mais inacreditável que pareça, este é o melhor proctologista de minha cidade, e isto, foi a última coisa que ouvi antes de saber que tenho dois, no máximo três meses de vida, este é o herói de meia idade que poderia arrancar uma laranja da minha próstata antes que houvesse uma plantação delas lá, mal suspeitava ele que eu andava num carro popular financiado, que atrapalhava seu trânsito e custaria menos que uma mulher não fosse os juros, eu e toda classe C responsáveis pelo adoecimento do tráfego dificultando a vida dos associados a Federação de proctologistas com olho de vidro. Estava resolvido! Dr. Luis não entendera nada! Aposto que não sabia se o Maverick era o Val Kilmer ou o Tom Cruise! Só sorriu por pena, pois ia dizer que tenho câncer.
                        Antes que abrisse a porta daquela sala e desse para a porta da rua, ou para a maior crise existencial que já tive na vida, ouvi uma voz complacente:

                         -- Fernando... -- Me chamou Dr. Luis sereno, tirou seu Ray Ban clássico do bolso e me entregou.-- esse é seu, pode ficar.
                       -- Obrigado. Falei. Mas pensei: "Obrigado seu grande filho da puta, agora eu tenho dois meses de vida e não sei se você não entendeu nada, ou estava se escondendo." Repeti isso em minha mente três vezes, odeio esse TOC, odeio esse TOC, odeio esse TOC.
                            -- Muito obrigado Dr. Luis, mas não posso aceitar seu presente, tenho eu lírico demais para usar seus óculos escuros.

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